13 novembro 2018

No Brasil ser honesto faz mal para a saúde

Escrevi esse texto em 2015.



Criei esse blog com o intuito de contar as muitas histórias que passei com meus amigos e de compartilhar pensamentos, aprendizados e outras experiências de minha vida, de forma sincera, divertida e engraçada. Porém, esta postagem sairá dessa linha, mas sempre mantendo a honestidade, como de costume.

Sou Biólogo, e trabalho há três anos como Licenciador Ambiental em um município gaúcho. A única profissão que lembro que queria ser desde criança era biólogo. Não perdia uma sexta-feira de Globo Repórter, quando o programa era sobre “bixos”. Minha mãe me dizia: “Fernando, hoje o Globo Repórter é de ‘bixo’”. Ela também sempre gostou de natureza. Assim, eu vivia falando por aí que queria ser biólogo quando crescesse. 

Pois bem, cresci (nem tanto), me esforcei bastante e me tornei biólogo. Uma coisa que eu sempre digo, é que se eu tivesse outra profissão faria biologia apenas por hobby, pois eu realmente gosto do que faço; e dou muita importância, pois a natureza viabiliza a manutenção da vida na terra à longo prazo.

Depois de formado veio o desespero, voltei para casa de meus pais e fiquei um ano ajudando no restaurante deles. Mas sempre pensando em qual seria meu próximo passo. Frustrado por não existir emprego para bacharéis em biologia recém formados e influenciado pelo meu pai, que vivia me dizendo para fazer concursos, e pelo meu amigo Rodrigo, que já tinha passado em um concurso na área dele, resolvi começar estudar para concursos. 

A primeira dificuldade foi não saber estudar. A segunda foi descobrir que praticamente todos os concursos para biólogo possuem apenas uma vaga. Em um ano prestei sete concursos públicos. Nos primeiros tive vergonha do resultado. Foi ali que eu vi que tinha que me dedicar mais. Finalmente no último concurso fiquei em primeiro lugar. 

Menos de dois meses depois recebi a ligação da prefeitura, me chamando para assumir o cargo.

Então, no dia 14 de fevereiro de 2012 comecei a trabalhar como biólogo em um município gaúcho, no cargo de Licenciador Ambiental. Fiquei extremamente empolgado, pois poderia fazer o que todos da minha turma almejavam, que era trabalhar diretamente na defesa do meio ambiente, na exigência do cumprimento da legislação ambiental, na prevenção da poluição!

Eu sempre tive aversão à corrupção e desonestidade, então essa era minha outra oportunidade: ser um servidor público honesto e dedicado. Eu poderia enfrentar os canalhas que queriam poluir, os colegas omissos que apenas queriam ganhar dinheiro e não fazer nada.

Comecei trabalhando com afinco, dedicação, absorvi todo conhecimento possível e sempre fui o mais competente e honesto possível.

Porém, meu maior desânimo foi aprender uma dura lição: no Brasil são as pessoas honestas que são severamente punidas, e não as desonestas!

Para quem não sabe, o Licenciador Ambiental é responsável pela emissão das licenças ambientais, como Licença Prévia, Licença de Instalação e Licença de Operação, assim como Alvará Florestal para poda, abate ou supressão de vegetação. Praticamente toda atividade econômica precisa de licença ambiental para funcionar ou para ser implantada. Todas as atividades devem respeitar as normas legais e podem apenas poluir dentro do legalmente permitido. Caso o empreendedor não cumpra as exigências do órgão ambiental ele poderá ser autuado ou terá sua licença ambiental revogada.

 A licença ambiental é um pré requisito para qualquer financiamento, participação de licitação, compra e venda de matéria prima, de produtos, disposição de resíduos, etc.

Assim, a licença ambiental é um documento extremamente importante. É normal as empresas terem que se adequar antes de sair a licença ambiental, pois quase todo mundo funciona de forma irregular. Então é preciso investir em equipamentos de controle ambiental e mudar a forma como geralmente os resíduos são gerenciados.

Então, os licenciadores são tidos como os grandes obstáculos para o enriquecimento e crescimento das empresas... (fajutas, porque as sérias só se beneficiam com a adequação ambiental).

Sabendo disso é fácil perceber que uma rotina diária é o prefeito receber reclamações sobre seus licenciadores. Uma vistoria que aponta uma irregularidade é uma afronta à empresa e à administração, ainda mais se a empresa financiou a campanha do prefeito atual. Cada exigência que se faz é um empresário em potencial no gabinete do prefeito, pedindo explicações. Isso é ridículo!

A pressão é muito grande, de todos os lados. As ameaças constantes. O medo de a administração te colocar numa fria ou armar uma pra cima de você é constante.

Estas situações são extremamente estressantes, porém eu nunca deixei de apontar uma irregularidade, de exigir uma adequação ou de indeferir uma solicitação sem condições mínimas ou de revogar uma licença quando adequadamente motivada.

Com isso algumas pessoas aproveitaram a insatisfação da administração em relação à minha pessoa e trocaram facilidades ambientais por regalias, tipo cursos (com diárias), participação em comitês (com diárias), recebimento de menor quantidade de processos e processos mais fáceis, etc. Nada disso me interessa, pois meu pagamento extra é a satisfação do dever cumprido, do orgulho próprio de nunca ter mudado uma licença ou um parecer para agradar ninguém.

Muitos colegas de profissão devem ter feito biologia por desconhecimento sobre a matéria, pois alguns fazem muito esforço para ganhar dinheiro e pouco se preocupam com o meio ambiente ou com os princípios constitucionais da administração pública.

Comecei a reclamar do excesso de trabalho que estava recebendo, dos processos difíceis que estavam me passando, enquanto muitas pessoas na prefeitura passavam o dia lixando a unha e resolviam problemas particulares, com o telefone da prefeitura aliás. Eu sabia que essa era a minha punição por ser honesto e competente. Porém as coisas começaram a piorar ainda mais...

Comecei a ser pressionado para fingir que não via certas coisas, para emitir licenças em desacordo com as normas, omitir dados, fatos, ignorar a legislação, “dar uma aliviada”, “dar um jeitinho”, em certas situações.

Como eu não cedia, começaram a espalhar boatos a meu respeito, que eu só queria ferrar com a administração, que eu era da oposição (apesar de nunca ter tido partido).

Todos cochichavam pelas minhas costas. As pessoas começaram a me tratar diferente.
E o pior: a minha avaliação no estágio probatório, que sempre tinha nota máxima, condizente com minha dedicação, honestidade e zelo pelo trabalho, agora estava com notas baixas, apesar de meu trabalho não ter mudado em nada, muito pelo contrário, estava trabalhando o máximo que podia mesmo sob forte estresse, em um ambiente de trabalho totalmente tóxico.
  
A sacanagem que me fizeram na avaliação do estágio probatório foi a gota d’água.

Como eu gosto muito de ciência, adoro livros de divulgação científica, aprendi desde muito cedo a ser intelectualmente honesto. Não roubar a ideia alheia, dizer a verdade, ser justo. A honestidade intelectual é um valor que me marcou profundamente. Lembro que a primeira vez que li sobre isso foi no livro do Carl Sagan, Um Mundo Assombrado Pelos Demônios.

Talvez seja por isso que uma coisa que me mata por dentro é injustiça e desonestidade. Quando cometeram aquela injustiça tremenda, e eu não podia fazer nada, aquilo me derrubou. Comecei a ter dor no peito de estresse, falta de memória, problemas de relacionamento, irritação constante, falta de apetite, perda de peso, e depois de um tempo comecei a ter alergia alimentar. Ainda estou fazendo exames para descobrir o que eu tenho, pois certos alimentos me deixam muito mal.

Muitas coisas aconteceram. No meio disso tudo uma servidora desiludida da vida, solteirona e triste, com uma fixação doentia por cães, parou de falar comigo e começou a debochar e me difamar e injuriar, tudo porque eu “me intrometi no serviço dela”. Passei um relatório de vistoria de um senhor que havia cortado dois pinheiros gigantes em cima de um morro, os quais eu havia indeferido a solicitação. Depois de um ano essa pessoa, que é agente de fiscalização ambiental, autuou o infrator. Porém, essa história, que deveria ser rotineira em todo departamento de meio ambiente, serviu para essa pessoa desequilibrada infernizar a minha vida. Passei mais de um ano ignorando essa pessoa. Porém, cheguei ao meu limite e percebi que quanto mais eu ignorava mais ela debochava de mim e me perseguia. Como minha mãe sempre diz: quanto mais você abaixa a cabeça, mais levanta a bunda (para ser chutada).

Tentei desesperadamente mudar de sala, para poder trabalhar ao menos, e poder me alimentar melhor, pois o estresse estava tão grande que eu mal comia. Mas eu, que não “colaborava” com a administração, nunca iria receber uma ajuda dessas. Eu poderia morrer se fosse o caso, que a administração nunca iria deixar eu mudar de sala. Eu estava ao ponto de explodir, disse para todo mundo que se não me autorizassem eu iria me mudar de qualquer forma, e que eles me mandassem pra rua se quisessem... Porém, depois de muito custo, muitos e-mails e insistência, um secretário interino, que estava só de passagem, me autorizou a mudar de sala. No mesmo minuto levei meu computador e todas as minhas coisas para a outra sala, antes que outras pessoas ficassem sabendo e me impedissem.

Não gosto nem de lembrar, fiquei traumatizado com todas essas situações. 

Porém, as coisas não mudam tão fácil. A mesma pressão continua. Ser honesto neste país é tremendamente difícil, estressante, perigoso, e faz mal para a saúde.

Mas apesar de tudo eu continuo aqui, sendo honesto, um pouco irritado com esse país de merda, porém com um sono tranquilo...

Aconteceu muitas coisas depois disso, que contarei em outra ocasião.

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