31 maio 2010

A Mente Descontínua

Muito da dificuldade da maioria das pessoas em compreender a evolução é devido ao fato de nós possuírmos um raciocínio e compreensão do mundo com o senso do descontínuo. Nossa percepção e senso comum nos diz que tudo tem que ter um intermediário bem delimitado. E assim, tudo tem que ter um inicio exato e, assim, um intermediário exato. Não percebemos o continuum que de fato permeia quase todas as coisas e eventos.

Algumas perguntas que a mente descontínua faz são do tipo, "qual foi o momento exato que surgiu o bipedismo" (locomoção com as duas pernas de forma ereta)?; "em que momento perdemos os pêlos do corpo?"; "quando surgiu a consciência?". Isso provem da mente descontínua, e é refletido em questões sociais, como, por exemplo, datas exatas em que uma criança se torna adolescente, jovem, adulta. Outro exemplo, menos voltado para o tempo-espaço, mas tambem um reflexo da nossa mente descontínua e particionalistica é a divisão que fizemos da realidade em diversas áreas do conhecimento (Física, Química, Biologia...) para facilitar a compreensão por parte dessa mesma mente separatista e classificatória.

Mas se pensarmos bem, não é assim que as coisas funcionam. O universo não se formou todo delimitado e organizado apenas para nós o entendermos. Não existe uma data certa, muito menos um indivíduo exato, em uma linhagem evolutiva, que foi o primeiro a andar em pé, ou o primeiro a não ter pêlos. Não há como sabermos o instante exato em que uma criança passa a ser adolescente ou jovem ou adulta.

Difícil de ir contra o senso comum? Deixe eu explicar melhor.

Um exercício mental para clarear as coisas é o seguinte: Imagine tirarmos fotos de segundo em segundo, de uma criança, acompanhando seu crescimento/desenvolvimento, durante toda sua vida; e depois tentarmos achar uma foto que indique o momento exato que esse indivíduo desenvolveu barba, nasceu o primeiro dente, entrou na puberdade, se tornou adulto, qualquer coisa. Isso é impossível, pois todas as fotos imediatamente antecedentes ou precedentes serão idênticas com a foto que escolhermos, pois estarão distantes umas das outras por apenas um segundo. Desta forma é impossível escolher uma foto exata em que ocorre uma mudança perceptível. Usamos a escala de segundos para medir o tempo; mas poderíamos usar milésimos de segundos no exemplo das fotos, ou qualquer intervalo de tempo. Só veremos diferenças se pegarmos duas fotos bem distantes uma da outra e consequentemente e tempos bem distantes. Dessa forma quanto maior o espaço de tempo entre as fotos melhor para a mente descontínua.

Isso ocorre com quase tudo no universo. Se imaginarmos as fotos do individuo em crescimento trocadas por ancestrais em uma linhagem evolutiva, o resultado será o mesmo. É impossível determinar a data e o individuo exato em que surgiu uma caracteristica como o andar bípede, a inteligência ou a perda de pêlos.
                                              Fig. 1. A grande corrente humana evolutiva.

Modificando a analogia, podemos imaginar uma corrente "humana" começando em nós e ascendendo até o ancestral comum entre nós e os chimpanzés (algo parecido com um gorila). Mentalmente daremos as mãos, formando uma corrente, para nossos ancestrais, começando pelo seu pai ou sua mãe (tem que escolher um caminho entre milhares), que darão a mão para um dos seus 4 avós, que por sua vez agarra na mão de um de seus 8 bisavós etc. Imaginemos essa super corrente humana fictícia chegando até o ancestral comum entre nós e os chimpanzés. Se fossemos medir a distancia percorrida, incrivelmente essa corrente teria apenas 600 km, (Dawkins, 2006). Mas mesmo assim se quiséssemos delimitar quando termina a nossa espécie e começa o Homo ergaster ou Homo erectus não conseguiríamos: é impossível. Se pudéssemos olhar para qualquer individuo na fila e os indivíduos logo á sua frente e atrás não veríamos nenhuma estrutura nova ou perdida ("evoluída"). Todos os indivíduos, evolutivamente falando, seriam iguais aos indivíduos próximos.

Fig. 2. Um descontínuo de milhões de anos.

Desta forma é impossível encontrarmos o individuo exato onde surgiu uma característica nova. Na figura  acima vemos um descontínuo de milhões de anos. Se estivessemos olhando para o continuum de indivíduos, nesta foto (a fila ascendente imaginária), não conseguiríamos dizer em qual momento exato uma espécie passa a ser outra. A nomenclatura em espécies só é viável porque os milhares de intermediarios estão extintos. O que vemos hoje são indivíduos solitários de lugares distantes dos colossais álbuns de fotos da vida ou das milhares de correntes evolutivas. Isso é o que ocorre com os fósseis. Só vemos os fósseis bem distantes uns dos outros (em milhões de anos).

                               Fig. 3. "Operários", óleo sobre tela de Tarsila do Amaral.

Essa "mania" de ver tudo em descontínuo também ocorre para a cor de nossas peles. Existe milhões de tons diferentes de pele. Se colocássemos milhares de pessoas em fila indiana, cada uma com um tom de pele diferente, indo do branco em um extremo ao negro no outro, não conseguiríamos diferenciar os tons de pessoas próximas. Não conseguiríamos distinguir onde começa e onde termina os pardos, negros ou brancos. Cada pessoa logo a traz na fila, ou logo a frente, parecerá ter o mesmo tom de pele da pessoa do meio. Só conseguimos classificar pessoas em brancas, negras ou pardas porque não vemos os milhares de intermediários, apenas lidamos com os extremos. Os tons de pele constituem um continuum, como as fotos de segundos em segundos e as linhagens evolutivas.

Mas parece muito difícil nos livrarmos do controle da Mente Descontínua e compreendermos o continuum que perfaz a vida. Talvez devemos fazer um esforço, pois a Mente Contínua não possui espaço para tantos preconceitos e incompreensões.

Éssa é a idéia!

28 maio 2010

O Feminismo ainda é o mesmo?

Por milênios as mulheres foram submissas aos homens, por quê? 

Antes da revolução agrícola e da formação de pequenos núcleos de humanos sedentários, que viriam a formar cidades e mais tarde Estados, o poder masculino se dava por uma característica inerente á nossa espécie: os homens eram caçadores e as mulheres cuidavam da cria, como em muitas das espécies animais. O corpo e fisiologia do macho do Homo sapiens foram “projetados” para a caça. Homens possuem maior poder de visão á longa distância, maior poder de memorização de lugares, ossos e músculos mais fortes, etc.. Enquanto mulheres estão mais adaptadas ao cuidado parental, como visão periférica, capacidade de fazer múltiplas tarefas, etc..

Já gostaria de antecipar que não quero criar nem me basear em uma ética/moral provinda de argumentos evolutivos. Estou, por enquanto, apenas tentando explicar a irrefutável dominação que o sexo masculino teve sobre o sexo feminino durante milhares de anos; muito mais baseado na força do que outra característica.

Como de praxe, o gênero mais forte ou que possui algum tipo de poder (vantagem) sobre o sexo oposto,  geralmente é o dominador. Homens mais fortes possuem mais testosterona, homens com maiores níveis de testosterona são comprovadamente mais agressivos. Homens fortes e agressivos projetados para a caça, conseguem comida; quem tem comida e é forte tende a ser o dominador. Isso foi muito necessário para a sobrevivência dos nossos ancestrais, se não fosse teríamos evoluído de maneira direfente. Com isso a cultura nasceu sob a dominação masculina, e isso reflete socialmente até os nossos dias.

Até recentemente mulheres não possuíam direito a voto, ficavam excluídas da política, religião (muito por causa desta), artes, ciências e muitas áreas profissionais, dominadas pelos homens. Neste ponto o feminismo surgiu para acabar com essa dominação social e igualar os direitos das mulheres com o dos homens. Neste sentido o feminismo chegou tarde ás nossas sociedades. Como a sociedade e a cultura são invenções humanas, independentes de força muscular ou algo evolutivo do tipo, é um absurdo ocorrer discriminação no âmbito de gênero. Mulheres possuem as mesmas capacidades e limitações que os homens. Lógicamente que devemos respeitar as diferenças, como exemplo o motivo primordial da dominação masculina: a força. Existe áreas em que homens são melhores que mulheres, como na área de construção civil, que exige força muscular. Outras áreas as mulheres se dão melhor, como o de Assistência Social, por exemplo. Mas suprimir direitos e oportunidades é outra história.

Até aí tudo bem. O problema se inicia quando muitas mulheres começam a esquecer o sentido original do feminismo e achar que ele é o oposto do machismo. E isso ocorre principalmente em países do "terceiro mundo" onde ocorre uma conturbação do sentido original do feminismo. Mas tenho que deixar bem claro que a culpa não é só das mulheres, é social, pois muitos homens também não compreendem bem esse movimento assim como a mídia em geral.

Todos sabem que o machismo é preconceituoso, rudimentar e maléfico para a sociedade, por isso devemos acabar com ele. Só que está ocorrendo uma interpretação do feminismo como sendo o oposto do machismo, um “machismo feminino”. Agora vou usar a principal característica do machismo para argumentar este ponto de vista: a promiscuidade.

Mulheres estão confundindo feminismo com “promiscuísmo”. Todos sabem que os homens no geral sempre traíram mais suas esposas. Biologicamente, esse impulso sexual constante para a fecundação do maior número de fêmeas possíveis é compreensível, apesar de não justificável. Logicamente que, depois que adquirimos consciência e inteligência, não podemos mais agir por um impulso evolutivo do passado. Se agíssemos com os mesmos impulsos então seria quase impossível viver em sociedade, pois assassinatos, estupros e roubos (apesar de às vezes serem punidos) foram comuns durante nossa evolução e é comum em muitas sociedades de primatas. Essa espécie de pós-feminismo ou feminismo conturbado está muito relacionada com o aumento da promiscuidade feminina, indicada em muitos estudos, e sem uma compreensão biológica, como ocorre com os homens (apesar de não justificar); reforçando ainda mais meu ponto de vista: é algo com raízes sociais e eu acho que provêm de uma má interpretação do feminismo.

A promiscuidade sempre esteve ligada direta ou indiretamente ao machismo. Agora, estando ligada ao feminismo, é uma evidencia de que esse movimento está sendo encarado por muitas pessoas como o oposto do machismo; se for o oposto do machismo então temos outro problema com que lidar. Estou usando a promiscuidade para desenrolar a argumentação porque sempre é algo prejudicial e que por parte das mulheres vem aumentando muito desde o surgimento do "feminismo conturbado", mas poderia usar outras características do machismo que está se incorporando ao feminismo.

Tanto a promiscuidade feminina quanto a promiscuidade masculina são prejudiciais e não contribuem em nada para o aumento da felicidade geral de um povo e, pelo contrario, do modo que nossa sociedade e cultura estão estruturadas, trazem infelicidades e prejuízos às relações humanas. Para fundamentar esse ponto de vista continuarei não usando argumentos biológicos. Irei justificar condutas humanas com argumentos antropológicos e sociais.

De todas as sociedades estudadas por antropólogos, mais ou menos metade são sociedades poligâmicas. E machistas, porque cada homem pode ter mais de uma mulher, mas não o oposto... Mas mesmo essas sociedades punem as pessoas (homens e mulheres) promiscuos. É bom distinguir bem promiscuidade de poligamia. São coisas bem diferentes.

Não quero implantar nenhum tipo de moralismo ou princípio. Apenas acho que o machismo e suas características, assim como o Feminismo encarado como o oposto do Machismo, não contribuem em nada para a felicidade geral de um povo. Não precisamos ser moralistas quando podemos ser racionais. Ser racional é analisar entre situações sustentáveis e prejudiciais e chegar á conclusão de qual a melhor maneira de se viver. E a melhor maneira de se viver com certeza é sem o Machismo e sem esse "Feminismo" conturbado...

11 maio 2010

Especiação e Amizades


Sabe o que especiação tem a ver com amizades? Primeiro vou explicar o que é especiação (para quem não sabe) e isso já dará uma luz sobre essa idéia.

Especiação é um dos modos de uma espécie dar origem a outras duas (espécies) descendentes. O exemplo mais famoso e mais compreendido é a especiação geográfica, onde uma população de indivíduos da mesma espécie é separada por algum obstáculo como, por exemplo, montanhas, rios, ou qualquer coisa que isole aquela população inicial em duas populações que não se cruzam entre si. Isso faz que, com o passar dos milhões de anos, cada população isolada se diferencie em espécies diferentes.

E o que isso tem a ver com nossos amigos? Se pensarmos bem, a especiação serve de analogia para o que acontece, inevitavelmente e quase sempre, com nossos amigos... É só questão de tempo...

Um dia a separação acontece e o que sobra é a saudade.


Uma boa amizade depende de muitos fatores, como conversas interessantes para os dois lados, brincadeiras do mesmo estilo, mesmos hobbyes, gostos etc. Logicamente que existe amizades que não compartilham de muitas coisas, talvez não possuam quase nada em comum, mas nesses casos com certeza algo muito importante para as duas partes os une... Se não fosse assim é difícil imaginar duas pessoas sendo amigas! "Falo" de amizade verdadeira, não coleguismo.

Agora vamos à nossa analogia. Esses amigos de verdade são como se fossem da mesma espécie, compartilham muitas características. Mas com o tempo as coisas podem mudar. E principalmente se ocorrer uma separação geográfica. E vai ocorrer... Algum dia seu amigo vai estudar longe, começar a namorar, trabalhar (você também, espero), e as coisas irão mudar... É, o mundo é cruel. Quando isso ocorrer, os amigos separados começam a divergir "geneticamente" mudando "fisiológica" e "morfologicamente". Isso é traduzido em muitos gostos, pensamentos, brincadeiras e hobbyes diferentes. Como na especiação, também aqui é diretamente proporcional ao tempo de isolamento.

É por isso que muitas amizades são fortalecidas com a convivência e enfraquecidas com a distância. Mas não sou de todo pessimista. É possível continuar amizades que ora foram boas e longas amizades, mesmo com muito tempo de distanciamento. Mas nesse caso também há algo forte que continua os unindo: as lembranças! Por isso nunca deixe de contar histórias e lembrar do bom e velho (literalmente) passado. Esse blog é um exemplo disso, temos muitas "histórias verídicas" para contar.

Ps: Essa idéia que a separação geográfica influencia na amizade entre pessoas é bem óbvia. Talvez muitas pessoas simplesmente não param para pensar nisso... Mas a analogia com a especiação biológica é muito boa.

Pss: A especiação geográfica entre amigos é apenas uma das situações relacionadas ao relacionamento humano que é possível fazer a analogia com a especiação biológica. Socialmente, quase todos os relacionamentos humanos são influenciados pela separação geográfica, positivo ou negativamente (dependendo do ponto de vista). Mas isso é outra história (ou outras idéias)...